sexta-feira, 21 de junho de 2013

V de quê?

10 de junho de 2013. Parecia o começo de uma fase emocionante. Um fio de esperança para uma geração, até aquele momento, apática. O Brasil havia acordado. A juventude do país começava a lotar as ruas. Em todo o mundo, muitos apoiavam nossa causa. E não era apenas por 20 centavos.

Rompia naquele momento uma... Revolução?

17 de junho. O congresso nacional foi palco de estimadamente cinco mil manifestantes. O centro do Rio foi palco de cem mil. Em todo o Brasil aconteciam protestos. Vandalismos e imprensa à parte, tudo parecia ir bem. O povo estava se unindo em prol dos seus direitos. E não era apenas por 20 centavos.

Até que...

19 de junho. Foi anunciada a diminuição das tarifas de transporte público. Mas o povo continuou nas ruas. Porque não é apenas por 20 centavos...

Então é pelo que?

Sim, sei a lista de causas. Não vou argumentar sobre elas. Concordo com muitas. A questão não é essa.

A forma que toda essa mobilização está tomando – ou a falta dela – é preocupante. Quando tudo começou acreditei, ainda um pouco cética, que a situação que meu país vive há tantos anos ia mudar. Ia demorar um pouco mais do que os outros imaginavam, mas ia mudar. Porque a cabeça do brasileiro estava começando a mudar. Mas cada vez mais estou sendo convencida do contrário.  

Vi muita gente indo aos protestos por modinha, mas não me incomodei. “É só o começo de uma politização, de uma conscientização” pensei. Mas alguns fatos começaram a me desanimar. Depois irritar. E agora, preocupar.  Vejo que a maioria do povo brasileiro acordou e decidiu lutar. Mas não se politizar.

A conduta de uma grande parte dos manifestantes – os pacíficos, não os violentos, esses eu nem perco meu tempo comentando – inicialmente era curiosa e quiçá até ingênua, mas crescentemente se mostra desprovida de qualquer ideologia política (da mesma forma ou talvez até mais do que os violentos).
Exemplo pequeno: o uso da máscara do Guy Fawkes, de “V de Vingança”. Guy Fawkes não é um símbolo de anarquismo? Então qual é o sentido de um manifestante consciente e minimamente politizado vestir essa máscara e, ao mesmo tempo, se envolver na bandeira do Brasil e pedir uma manifestação pacífica – lembrando que anarquia é a ausência de ordem –?   
Um exemplo alarmante: a quantidade de gente bebendo antes e/ou durante o último protesto no Rio de Janeiro. Quem vai a um protesto, ainda mais sabendo dos resultados dos protestos recentes, e acha que álcool é uma boa combinação para o momento, de duas, uma; ou não tem a menor noção do que um protesto representa, ou não tem o menor respeito pelo que um protesto representa.

E mais.

Muitos estão dizendo por aí que a solução é tirar a Dilma do poder. Mas como isso seria a solução?

Não me entendam mal, eu não estou justificando as ações de nenhum dos governantes. Mas vamos parar pra pensar um pouco? Nenhum deles veio de Zimbábue, Índia ou Nova Zelândia para ocupar o cargo. Todos são brasileiros e um dia estiveram, de uma forma ou de outra, no nosso lugar. Eles cresceram com a mesma mentalidade que nós, e muitos já lutaram como nós estamos agora. E vocês acham que um impeachment fará surgir um governante perfeito e íntegro, assim, do nada? Como isso funcionaria? Quem entraria no lugar da Dilma? Vocês sabem de algum candidato? Porque, honestamente, ainda não consegui pensar em um. Não é tão simples. Querem apostar quanto que esses que estão falando de impeachment não sabem sequer uma proposta do PT? Que dirá de qualquer outro partido.

Ouço ainda burburinhos de discursos antipartidaristas. Oi?!

A galera esbraveja furiosamente contra as repressões, dizendo que isso é ditadura... E não entende a importância do pluripartidarismo em uma democracia? Uma dica: países como China, Cuba e Vietnã são unipartidários. Algum comentário?

Não é à toa que as mobilizações estão virando bagunça. Uma massa sem objetivo e sem opinião formada acerca de política sempre acaba se dispersando e cometendo erros graves. Ninguém nunca sabe onde mirar e todos são facilmente levados por boatos e discursos bem feitos.

Uma massa que é facilmente levada por boatos e discursos bem feitos. Conseguem pensar em alguém que possa se aproveitar disso?

Ir às ruas é importantíssimo. Mas fazê-lo sem embasamento é uma receita para um fracasso ou para um desastre.


O Gigante acordou? Que bom. Vamos botar ele pra estudar agora.